No Caminho do Meio, a Temperança

[2550.] ao #17050.º

Sobre a mesma temática, da ‘necessária despolarização da sociedade portuguesa nos tempos em que vivemos‘, publiquei na mesma semana dois textos de Opinião. No Correio de Coimbra, em 27NOV25, e no Diário de Coimbra, em 28NOV25. São duas abordagens ligeiramente diferentes sobre um mesmo tema. O texto do Diário de Coimbra segue neste post. O artigo do Correio de Coimbra está AQUI.

Antevendo mais um número quase bélico, o Presidente da República, na sessão solene do 25 de Novembro, preferiu falar de um Portugal com 900 anos e evitar o lugar-comum de exaltação versus negação do acontecimento histórico celebrado. Interpretámos um louvor, da parte do Chefe do Estado, a um Portugal maduro e perene orgulhoso da sua moderação e bom senso, hoje (momentaneamente?) envolto num clima de polarização crescente.

A polarização, enquanto ideia, reduz-nos, no contexto de convivência e socialização, a um caminho em que toda a visão da realidade se acossa à hipótese de dois polos antagónicos –, coloca-nos na obrigação de escolher apenas um dos lados. Depois impele-nos a catalogar o outro que está ‘do outro lado’ com generalidades que, no limite, o categorizam pelo polo escolhido.

É isso que vivemos em Portugal. Vivemo-lo na Política, em primeiro lugar, mas, entretanto, fomos contagiados pelos media para outros sectores da sociedade, até já se ter implantado nas conversas entre amigos, colegas de trabalho e famílias. Parece que vivemos, todos, no fio de uma navalha, onde não se pode estar sem cair para um dos lados opostos. Quem não concorda comigo, discorda de mim! Quem não é por mim… é contra mim!

Vivemos uma polarização que não é – ao inicio – uma crispação violenta, mas uma erosão silenciosa: o cancelamento dos que pensam diferente, a suspeita sobre o outro, o empobrecimento da conversa pública.

Em 25 de Novembro de 2025, ao encerrar a sessão solene da Assembleia da República evocativa dos 50 anos do 25 de Novembro, Marcelo Rebelo de Sousa entregou ao país — e aos seus representantes — um discurso onde exaltou a moderação, a temperança e a esperança.

Marcelo Rebelo de Sousa falou de 1975, quando “entre o risco da violência e a temperança, venceu a temperança”. E que, apesar das disputas sobre quem ganhou mais ou menos, quem perdeu mais ou menos, no fim “a pátria ganhou certamente”. Poderia estar a falar também de 2025?

Evocou Dom Pedro, 1.º Duque de Coimbra (1392-1449) “que morreria às mãos de um sobrinho”, para falar de um Portugal com nove séculos de existência e com características e virtudes inatas, sendo que a maior delas – para Pedro e para Marcelo –  é a Temperança”. Isto é, o equilibro, que, segundo o chefe de Estado, prevaleceu no 25 de Novembro de 1975, com a vitória do “equilibro, da sensatez, da moderação”.

“Os portugueses estão unidos no essencial e com temperança”, considera Marcelo Rebelo de Sousa, no final do seu mandato. Uma perspetiva – ou perceção, como sói dizer agora – que remete para o reconhecimento de que há mais do que nos une do que daquilo que nos separa. E que não é a força nem o grito que consolidam a voz e a opinião coletiva, mas o respeito mútuo, a moderação, o reconhecimento da história e a responsabilidade coletiva.

Saibamos perceber que, com 900 anos, Portugal já tem idade para se deixar de entusiasmos momentâneos, de iras galvanizadoras e de voluntarismos efervescentes, e com Temperança resolver os seus problemas passo a passo, no vagar de quem tem consigo sabedoria.

Texto publicado no Diário de Coimbra de 28NOV25.

Diário de Coimbra #56

Ó pá: Despolariza-te!

[2549.] ao #17049.º

Na mesma semana, publiquei no Correio de Coimbra, em 27NOV25, e no Diário de Coimbra, em 28NOV25, dois artigos de opinião sob a mesma temática da ‘necessária despolarização da sociedade portuguesa nos tempos em que vivemos”. Será só a portuguesa?… São duas abordagens ligeiramente diferentes sobre um mesmo tema. O texto do Diário de Coimbra está AQUI. Segue o artigo do Correio de Coimbra.

“Ninguém é isento!” é uma ideia que está hoje enraizada na sociedade portuguesa. Não subscrevo, mas compreendo quem a utiliza. Desta sentença se projeta a convicção – simplista – de que perante uma situação, um acontecimento, um posicionamento ou uma opinião, só há duas hipóteses: Ser a favor ou ser contra. Inviabiliza-se qualquer hipótese de uma via alternativa, que possa passar pelo meio termo, por um outro caminho, por um outro ponto de vista.

Esta ideia, que é de polarização – porque apenas vê a hipótese de dois polos antagónicos –, coloca-nos na obrigação de escolher apenas um dos lados, e depois impele-nos a catalogar o outro que está ‘do outro lado’ com generalidades que, no limite, o categorizam pelo polo escolhido. 

Partir do principio de que ‘ninguém é isento’ faz-nos ‘comer’ opiniões, não de comentadores independentes e ‘externos à contenda’, mas, apenas de representantes dos dois lados. Aceitámos prescindir das ‘análises’ para passarmos a ter, apenas e exclusivamente, debates, duelos e gritarias dramáticas. A demonstrar o que digo aconselho a visualização – mesmo que rápida – de qualquer canal de noticias na atualidade.

Antevendo mais um número quase bélico, o Presidente da República, na sessão solene do 25 de Novembro, preferiu falar de um Portugal com 900 anos e evitar o lugar-comum de exaltação versus negação do acontecimento histórico celebrado. Interpretámos uma referência, da parte do Chefe do Estado, a um Portugal maduro e perene orgulhoso da sua moderação e bom senso, hoje (momentaneamente) envolto num clima de polarização crescente. Uma polarização que não é – ao inicio – uma crispação violenta, mas uma erosão silenciosa: o cancelamento dos que pensam diferente, a suspeita sobre o outro, o empobrecimento da conversa pública.

Precisamos de nos despolarizar. E com isto não nos referimos à diluição das convicções nem à indiferença política. Refiro-me à capacidade de transcender o dualismo, a lógica histérica do “ou és comigo ou contra mim”. A vida democrática perde profundidade quando a divergência se transforma em trincheira. E perde caridade — essa forma de amor político tão esquecida — quando deixamos de procurar no outro o irmão, vendo apenas o adversário.

No escutismo aprendemos cedo que “o outro” não é ameaça, mas oportunidade. A patrulha é um laboratório de divergências onde cada voz é necessária. Nunca fomos treinados para pensar todos da mesma maneira — fomos treinados para, pensando diferente, agir juntos. Essa pedagogia da convivência, tão simples na forma e tão exigente no espírito, é talvez uma das respostas mais urgentes para a vida pública portuguesa.

Despolarizar não significa apagar conflitos; significa integrá-los com inteligência e humanidade. Significa cultivar uma discordância saudável, onde o argumento vale mais do que o rótulo, e onde a verdade se procura no diálogo e não na crispação. Como cristãos, acreditamos num Deus que se revela na relação; como escuteiros, acreditamos numa construção comum que exige mão estendida e disponível, não punho cerrado.

Talvez seja tempo de recuperarmos a velha arte da dialética: conversar para compreender, discordar para crescer, debater calmamente para servir. A política portuguesa — e, no fundo, toda a nossa vida comunitária — precisa urgentemente desta cultura. Porque a polarização não destrói apenas o espaço público; destrói sobretudo a confiança, essa pedra angular da convivência democrática.

Que este seja, portanto, o apelo: despolarizar para reconstruir. Reencontrar a coragem de ouvir, a humildade de rever posições, a ousadia de cooperar com quem pensa diferente. Não há futuro comum sem esta conversão do olhar. E talvez o escutismo, com a sua simplicidade pastoral e a sua sabedoria prática, possa ajudar a abrir esse caminho.

Texto publicado no Correio de Coimbra de 27NOV25

Correio de Coimbra #24

Problemas no elevador (social)?

[2548.] ao #17036.º

É consensual dizermos que, tal como no passado, hoje vivemos obcecados com o desígnio de proporcionar aos nossos filhos um futuro melhor do que aquele que tivemos. Para isso, dispomo-nos a trabalhar mais horas, procuramos poupar recursos financeiros, mesmo que com esforço, sacrificamos o lazer e, muitas vezes, a nossa própria saúde, em nome de um ideal que parece quase sagrado: o progresso geracional. Queremos que os nossos filhos estudem mais, viajem mais, tenham menos dificuldades, sofram menos. Queremos que tudo isso, incluindo a Escola, seja um verdadeiro Elevador Social, em que a geração seguinte consiga um posicionamento acima da geração que a antecede. Queremos que os nossos descendentes vivam num mundo mais justo, com mais oportunidades, mais conforto, mais dignidade. E nós queremos ser alavanca desse progresso.

Curiosamente, verificamos uma contradição profunda nesta ambição — uma espécie de ironia social que raramente reconhecemos. Ao mesmo tempo que nos sacrificamos para que as gerações seguintes vivam melhor, olhamos com desconfiança, até com certo desprezo, para aqueles que já vivem num patamar de conforto e privilégio que gostaríamos de garantir aos nossos filhos. Olhamos com censura para os adultos e para os jovens que que cresceram rodeados de estabilidade, de acesso à cultura, de oportunidades que muitos não tiveram. Aos filhos de famílias mais abastadas chamamos-lhes “privilegiados”! Como se não tivessem qualquer mérito naquilo que usufruem. ‘Vestem as calças do pai’, como muitas vezes dizemos.

A verdade é que, em muitos casos, o que criticamos neles é exatamente aquilo que desejamos para os nossos. Queremos dar-lhes acesso a boas escolas, a viagens, a segurança emocional e material — mas se alguém já tem isso, achamos que é “demasiado”. Como se o conforto alheio fosse uma ofensa à nossa luta. É um paradoxo moral e cultural profundamente enraizado na mentalidade portuguesa: a inveja disfarçada de virtude crítica.

O problema talvez esteja na forma como entendemos o mérito. Confundimos muitas vezes esforço com sofrimento. Achamos que só quem lutou contra grandes adversidades é digno de respeito. Como se o valor de uma pessoa se medisse pelo número de quedas que sofreu, e não pela forma como vive ou contribui para o mundo. Esquecemo-nos de que o verdadeiro objetivo do progresso é precisamente quebrar o ciclo da luta incessante. Se conseguimos criar condições para que alguém viva melhor, isso não deveria ser motivo de censura, mas de celebração.

O que diz de nós, enquanto sociedade, o facto de querermos que os nossos filhos tenham vidas prósperas, e ao mesmo tempo condenarmos aqueles que já nasceram nesse contexto? No fundo, o que desejamos para os nossos filhos é exatamente o que criticamos nos filhos dos outros: uma vida melhor. Se formos coerentes com os nossos próprios valores, perceberemos que o objetivo não é que ninguém viva pior, mas que todos possam viver mais e melhor — com dignidade, segurança e esperança. Esse é o verdadeiro legado que uma geração pode deixar à seguinte.

Texto publicado no Diário de Coimbra de 14NOV25

O nosso velhinho comunista que nunca se resignou!

[2547.] ao #15853.º

O mês de Agosto é pródigo no nascimento de grandes mealhadenses. Hoje, 20AGO, é o dia do nascimento de um dos maiores. Luís Bernardino Marques nasceu no dia de hoje, há 114 anos. Nasceu no concelho de Castelo Branco, é certo, mas desde que em 1927, como funcionário dos caminhos-de-ferro, foi colocado no concelho da Mealhada, tornou-se um dos nossos maiores.

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Como ativista, como anti-fascista, depois de 1947 como comerciante e empresário, Luís Marques foi a nossa mais motivada e mobilizadora personalidade do século XX. Foi como dirigente associativo, como líder de vontades e voluntários que se tornou a memória viva que ainda hoje tanta falta nos faz.
Foi talvez um dos nossos maiores políticos… sem nunca ter ganho uma eleição, e é a ele que devemos tanto do que temos e tanto do que somos!
Viva o nosso velhinho! O nosso velhinho comunista que nunca se resignou!
22.232

Graças pela vida deles nas nossas vidas!

[2546.] ao #15852.º

Alertado pelo Facebook – confesso a minha culpa – percebi hoje que duas pessoas que muito estimo, que muito admiro e com quem aprendi muito (e de quem tenho muitas saudades) nasceram no mesmo dia 19 de agosto de 1945. Falo do Padre Abílio Simões e do Mário Fernandes Oliveira. Ambos completariam hoje 77 anos de vida.
Não me lembro se alguma vez os vi juntos. E dificilmente, à primeira vista, encontraria tantas semelhanças e proximidades como as que a falta e a saudade, obrigando à recordação, hoje me assolam.

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Duas pessoas que amavam profundamente o Conhecimento, a Cultura, a Verdade, a Ética e a Justiça. Talvez amassem estes valores, ambos e em conjunto, como não conheço mais ninguém. Dois homens extraordinários, humildes, ávidos de certezas e apaixonados por uma boa peleia.

abilio e mario 2
Nunca me lembraria de os ver juntos, mas hoje não me sai da cabeça a imagem de os imaginar aos dois, no Céu, lado a lado, com a cabeça enfiada num jornal… Com Deus a perguntar o que vem a ser isto e o São Pedro a encolher os ombros e dizer: ‘Eles são assim! Não obedecem a ninguém!’

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Saudades.
22.231

O país dos andarilhos

Mil Carateres #18 – Publicado no Jornal da Mealhada de 03AGO22

[2545.] ao #15836.º

Tenho muitas saudades do senhor Basílio Gouveia Lopes. Privei com ele de perto quando foi membro da Junta de Freguesia da Mealhada – especialmente de 2002 a 2005 – e tenho memórias fantásticas de alguém que poderia ser meu avô, mas que tinha comigo uma relação de amigo.

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Por estes dias em que nos cruzamos pelas ruas do nosso concelho com muitas pessoas que percebemos estarem de férias e serem emigrantes, ou pura e simplesmente luso-descendentes, recordo-me especialmente do senhor Basílio. Nas muitas conversas que íamos tendo, não raras vezes o senhor Basílio, que esteve décadas emigrado em França, pedia-me desculpa por, volta-e-meia, lhe sair uma palavra em francês, ou por encalhar na vontade de dizer alguma coisa e não se lembrar do termo em português. “Oh doutor, desculpe!”, dizia ele enervado e triste, com o que considerava ser uma fragilidade.
Do senhor Basílio tive o privilégio de recolher o testemunho do sofrimento e do sacrifício que na década de 1950 e 1960, especialmente, significava a emigração para França, sem saber a língua, sem saber ao que se ia, a caminho das bidonville aceitando piores condições de vida em nome da esperança num futuro melhor e mais próspero.
Na minha cabeça, o rosto do emigrante passou a ser o do senhor Basílio. Regressado a Portugal para gozar a ‘retraite’ – mas entregando-se de corpo e alma à comunidade e ao serviço aos outros – era na linguagem, no falar, que mais complexos sentia. Sabia, no seu íntimo, que as suas gaffes podiam ser a chacota de outros e retraía-se.
Complexos que somava a outros, por exemplo o das ligações perdidas ou não que não puderam ter investimento afetivo pela circunstância do trabalho ou da distância. Mas não deixava de ter no rosto o brilho do sucesso, da conquista e da vitória. Uma vitória que narrava com orgulho no facto de ser português, emigrante, sem qualificações, mas ser visto pelos franceses como alguém em quem se podia confiar, de responsabilidade, que era um exemplo de dedicação ao trabalho, com resiliência e capacidade de sacrifício.
‘Sabe doutor’, dizia-me o senhor Basílio, ‘ninguém sabe o que custa ser emigrante!’. ‘E sabe o que custa mais?’, continuava em jeito de pergunta retórica: ‘É que deixamos de ser!…’. E perante o meu olhar de espanto, seguia a resposta: ‘Em França não deixamos nunca de ser os portugaises e em Portugal seremos sempre os franceses! Nunca somos do sítio onde estamos!’.
Somos um país de andarilhos. Estamos sem sermos de sítio nenhum. Uma terra de gente que se espalha no mundo, em qualquer lado e se mistura. Mas Portugal não deixa, tantas vezes, de ser a aldeia habitada pelos que não puderam partir, e que se alimenta da inveja do sucesso do que não compreende.
Bem vindos sejam os portugueses andarilhos, é um gosto tê-los de volta.

Por que arde Portugal?

Mil Carateres #17 – Publicado no Jornal da Mealhada de 20JUL22

[2544.] ao #15823.º

Eis a pergunta sacramental para a qual todos temos respostas, mas que não deixamos de fazer: Por que arde Portugal?
Das respostas que temos, invariavelmente, mora a culpa na casa ao lado. O Governo diz que a culpa é dos proprietários, os proprietários respondem que a culpa é da ‘mão criminosa’, outros afirmam que a culpa é da falta de meios, outros da descoordenação. E até num momento em que parecia que íamos ter o Presidente da República a dizer ‘A culpa é minha!’… ouvimos antes dizê-lo que não se recandidataria se os culpados não resolvessem o problema.
Pois bem… parece-me claro que está mais que visto que a culpa de Portugal, ciclicamente, arder loucamente é de todos, inclusivamente de quem escreve este texto e de quem o está a ler.
Neste ano de 2022, percebemos que há o problema natural das altas temperaturas e das baixas humidades que levam a que os incêndios sejam mais violentos. Em Albergaria, na semana passada, uma área que em 2017 tinha demorado 3 dias a arder… ardeu agora em 7 horas. Está a arder Portugal… como está a Espanha, o sul de França e a Itália. São as alterações climáticas? Atribua-se a culpa, então, democraticamente.
O abandono e a falta de cuidado de terrenos florestais perdidos por esse país, com tantos donos que não há quem mande limpar – até porque limpar é muito caro e não há quem o faça – são outro problema. Fazer o cadastro dos terrenos – com borlas temporárias e outros benefícios – é importante, mas não torna os terrenos imunes ao fogo. Emparcelar os terrenos, nacionalizar a propriedade não reclamada, ou fazer as Zonas de Intervenção Florestal (uma espécie de modelo cooperativo em que alguém gere e divide os lucros) são uma solução? É possível que sim, mas é preciso pressa e mão firme para tomar essas decisões… E os terrenos do Estado não são modelo para coisa nenhuma.
Financiar convenientemente os corpos de bombeiros e valorizar os bombeiros voluntários não evita os fogos, mas pode torná-los menos devastadores.
Há muito a fazer para minimizar o impacto que os fogos rurais ou florestais têm na nossa vida – com implicações económicas generalizadas e muito importantes -. E todos temos um papel nisso, quer sejamos herdeiros de terrenos perdidos por aí, quer sejamos profissionais de qualquer área de conhecimento, vivamos no campo ou na cidade, quer sejamos, apenas (?) eleitores. Podemos fazer todos parte da solução.

Ir além das frases feitas

 

Mil Carateres #16 – Publicado no Jornal da Mealhada de 06JUL22

[2543.] ao #15809.º

Alerta prévio: Se tens entre 16 e 26 anos, por favor não leias este texto! Todos preferimos que não o faças!

A Fundação José Neves publicou a 21 de junho a segunda edição, a de 2022, do Relatório “Estado da Nação na Educação, Emprego e Competências” – acessível nesta morada https://joseneves.org/pt/estado-da-nacao-2022/ e com a sessão de apresentação no Youtube -. Este documento apresenta um retrato sobre a evolução da conjugação dos resultados na Educação, mais propriamente no domínio das Competências, e a sua conjugação no Emprego, e especialmente nos salários e nos rendimentos dos trabalhadores. E é mesmo importante que se leia o que diz este relatório, antes de se propalarem as frases feitas do costume autojustificativas de medidas que num país de brandos costumes nunca são avaliadas.
Não conseguimos em Mil Carateres analisar todo o documento e com isso justificar o que dissemos acima. Assim, seja-nos tolerado hoje o excesso e permita-se que abordemos três ideias simples, que o Relatório documenta friamente.
Primeira ideia – Os aumentos dos salários não estão a refletir-se em salários reais dos mais qualificados.
“Entre 2011 e 2019 o salário médio dos portugueses aumentou apenas para os trabalhadores com o ensino básico, na ordem dos 5%, por força do aumento do salário mínimo por decreto-lei e por via da negociação coletiva”. Pode até concluir-se do Relatório que o aumento ‘potestativo’ dos salários mais baixos provocou uma perda real de rendimentos dos trabalhadores com mais qualificações. Os trabalhadores com o ensino superior perderam 11% de salário real, e até os que têm o ensino secundário perderam rendimento, na casa dos 3%. Se a análise destas medidas se focar apenas nos mais jovens, percebemos que entre os jovens licenciados portugueses, na última década, os seus salários reais desceram 15%. Desceram 12% entre os que possuem o grau de mestre e 22% entre os doutorados.
E não é difícil perceber que do esforço hercúleo das empresas para aumentar os salários mínimos, não há margem para acompanhar proporcionalmente os salários dos trabalhadores diferenciados ou mais qualificados.
“Há cinco países da UE em que os trabalhadores menos qualificados ganham menos do que os muito qualificados em Portugal e noutros 13 os trabalhadores que têm secundário são mais “ricos” do que os nossos licenciados”, frisa o Relatório.
Segunda ideia – O investimento no aumento das qualificações não está a refletir-se num aumento da produtividade.
O Relatório considera que, apesar de os jovens estarem cada vez mais qualificados, isso só se reflete na produtividade quando estes “têm um peso superior a 40% no total de trabalhadores”. “A produtividade em Portugal tem perdido terreno face à média europeia e nem o aumento das qualificações das gerações mais jovens inverteu a tendência. Em 2019, éramos o 6.º país com menor produtividade – só acima de Roménia, Polónia, Letónia, Grécia e Bulgária – e desde 2000, ela nunca ultrapassou os 70% da média europeia (a última vez foi em 2013), tendo chegado à pandemia nos 66%”, diz o Relatório.
Terceira ideia – Os gestores/empregadores portugueses não têm qualificações.
Por fim há o velho problema dos gestores portugueses. Que é o da sua própria qualificação, em que quase não se tem visto investimento, com o país a apresentar a maior percentagem de empregadores que não terminou o ensino secundário. “Em 2021, era o caso para 47,5% dos empregadores, praticamente o triplo da média europeia (16,4%)”, lê-se no Relatório.

Se contrariamente ao que te foi pedido, tens entre 16 e 26 anos e estás a ler este texto, não fiques a pensar que com isto estamos a dizer que não deves aprofundar as tuas competências e investir na tua formação. O Relatório deixa claro que apesar de tudo, nomeadamente desta perda na última década, em Portugal um trabalhador licenciado tem um ganho salarial de 50% em comparação com um que tem apenas o secundário. E esta diferença passa para os 59% para quem tem mestrado. E há ainda “Os prémios salariais, que também se verificam nos jovens adultos (dos 25 aos 34 anos) e são os mestrados que conferem um retorno salarial superior, com ganhos de 43% face ao ensino secundário e de 15% face às licenciaturas”. O Relatório revela até que as perspetivas de estarem entre os 40% da população com maior rendimento aumenta em 50%” para os licenciados.

Roma ama a traição mas odeia os traidores

Mil Carateres #15 – Publicado no Jornal da Mealhada de 22JUN22

[2542.] ao #15795.º

A Política como Roma, e Roma como Júlio César, ama a traição, mas odeia os traidores. A ideia tem mais de dois milénios, permanece atual e assolou-me no final do dia de domingo, 19 de junho, com a notícia de que, em França, a coligação de Emmanuel Macron, apesar de ter sido a formação mais votada, não tinha maioria absoluta nem eventuais hipóteses de dar à Nação estabilidade governativa.
Emmanuel Macron foi a espoleta que deu origem, em França, a um processo de desestabilização político-partidária que acabou por tornar em escombros o histórico Partido Socialista Francês e em frangalhos a direita moderada que nunca se quis aliar ao clã Le Pen. Agora, a sua coligação política precisa de aliados para governar… e eles já não existem porque foram mortos pelo próprio Macron.
Macron sempre se assumiu como uma espécie de ‘jovem turco’ da política francesa. Com 29 anos torna-se militante do Partido Socialista Francês, chega a colaborador direto do Presidente da República François Hollande, em 2012, e Ministro da Economia em 2014. Saiu do Governo socialista dois anos depois, funda um partido político liberal – o En Marche!, oficialmente Associação para a Renovação da Política, mas cuja sigla (EM) são as iniciais do fundador. E apresenta-se às Eleições Presidenciais de 2017, que ganha com 66,10% dos votos.
Emmanuel Macron simboliza a política personalizada na figura de um jovem, capaz de mudar o Mundo, a França e o sistema político. Macron e o En Marche! passam a ser a pedrada no charco que destrói a lógica partidária do funcionamento democrático e os franceses confiaram nele. Era preciso acabar com o status quo.
Mas a prática política diária costuma desmentir estes lirismos românticos da mudança pela mudança e percebe-se que a tranquilidade, a estabilidade e o equilíbrio e a perenidade que a democracia exige e que os partidos – com muitos defeitos, é certo – garantem é absolutamente essencial. Na reeleição de abril de 2022, depois de um primeiro mandato conturbadíssimo, foi mais difícil segurar-se no Eliseu e só alcançou 58,54% da preferência na segunda volta contra Le Pen.
Agora o En Marche e a coligação com que se apresentou a eleições – o Ensemble! – tem 244 dos 577 lugares da Assembleia Nacional. O partido da direita moderada Les Républicains tem os 61 lugares que o EM precisaria para a estabilidade. Mas o partido fundado por Sarkozy não se quer coligar com quem o remeteu para a quarta posição do espectro partidário francês.

Nos Açores, as estações do ano são meros apeadeiros

[2532.] ao #15772.º

Nas Lajes do Pico, terra de baleeiros, almoçámos muitíssimo bem no Restaurante Ritinha, mesmo no centro. Peixinho delicioso e bem tratado, bem regado com branco local e servido simpaticamente. Um regalo para os sentidos.
O passeio foi entre o parque de São João Pequenino e a Silveira, entre criptomerias, calhaus vulcânicos, moinhos de vento e alguma chuva.
Nos Açores as estações do ano são meros apeadeiros… Só têm a importância que lhes dermos.
22.150
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