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Alertado pelo Facebook – confesso a minha culpa – percebi hoje que duas pessoas que muito estimo, que muito admiro e com quem aprendi muito (e de quem tenho muitas saudades) nasceram no mesmo dia 19 de agosto de 1945. Falo do Padre Abílio Simões e do Mário Fernandes Oliveira. Ambos completariam hoje 77 anos de vida.
Não me lembro se alguma vez os vi juntos. E dificilmente, à primeira vista, encontraria tantas semelhanças e proximidades como as que a falta e a saudade, obrigando à recordação, hoje me assolam.
Duas pessoas que amavam profundamente o Conhecimento, a Cultura, a Verdade, a Ética e a Justiça. Talvez amassem estes valores, ambos e em conjunto, como não conheço mais ninguém. Dois homens extraordinários, humildes, ávidos de certezas e apaixonados por uma boa peleia.
Nunca me lembraria de os ver juntos, mas hoje não me sai da cabeça a imagem de os imaginar aos dois, no Céu, lado a lado, com a cabeça enfiada num jornal… Com Deus a perguntar o que vem a ser isto e o São Pedro a encolher os ombros e dizer: ‘Eles são assim! Não obedecem a ninguém!’
Saudades.
22.231
Mil Carateres #18 – Publicado no Jornal da Mealhada de 03AGO22
[2545.] ao #15836.º
Tenho muitas saudades do senhor Basílio Gouveia Lopes. Privei com ele de perto quando foi membro da Junta de Freguesia da Mealhada – especialmente de 2002 a 2005 – e tenho memórias fantásticas de alguém que poderia ser meu avô, mas que tinha comigo uma relação de amigo.
Por estes dias em que nos cruzamos pelas ruas do nosso concelho com muitas pessoas que percebemos estarem de férias e serem emigrantes, ou pura e simplesmente luso-descendentes, recordo-me especialmente do senhor Basílio. Nas muitas conversas que íamos tendo, não raras vezes o senhor Basílio, que esteve décadas emigrado em França, pedia-me desculpa por, volta-e-meia, lhe sair uma palavra em francês, ou por encalhar na vontade de dizer alguma coisa e não se lembrar do termo em português. “Oh doutor, desculpe!”, dizia ele enervado e triste, com o que considerava ser uma fragilidade.
Do senhor Basílio tive o privilégio de recolher o testemunho do sofrimento e do sacrifício que na década de 1950 e 1960, especialmente, significava a emigração para França, sem saber a língua, sem saber ao que se ia, a caminho das bidonville aceitando piores condições de vida em nome da esperança num futuro melhor e mais próspero.
Na minha cabeça, o rosto do emigrante passou a ser o do senhor Basílio. Regressado a Portugal para gozar a ‘retraite’ – mas entregando-se de corpo e alma à comunidade e ao serviço aos outros – era na linguagem, no falar, que mais complexos sentia. Sabia, no seu íntimo, que as suas gaffes podiam ser a chacota de outros e retraía-se.
Complexos que somava a outros, por exemplo o das ligações perdidas ou não que não puderam ter investimento afetivo pela circunstância do trabalho ou da distância. Mas não deixava de ter no rosto o brilho do sucesso, da conquista e da vitória. Uma vitória que narrava com orgulho no facto de ser português, emigrante, sem qualificações, mas ser visto pelos franceses como alguém em quem se podia confiar, de responsabilidade, que era um exemplo de dedicação ao trabalho, com resiliência e capacidade de sacrifício.
‘Sabe doutor’, dizia-me o senhor Basílio, ‘ninguém sabe o que custa ser emigrante!’. ‘E sabe o que custa mais?’, continuava em jeito de pergunta retórica: ‘É que deixamos de ser!…’. E perante o meu olhar de espanto, seguia a resposta: ‘Em França não deixamos nunca de ser os portugaises e em Portugal seremos sempre os franceses! Nunca somos do sítio onde estamos!’.
Somos um país de andarilhos. Estamos sem sermos de sítio nenhum. Uma terra de gente que se espalha no mundo, em qualquer lado e se mistura. Mas Portugal não deixa, tantas vezes, de ser a aldeia habitada pelos que não puderam partir, e que se alimenta da inveja do sucesso do que não compreende.
Bem vindos sejam os portugueses andarilhos, é um gosto tê-los de volta.
Mil Carateres #17 – Publicado no Jornal da Mealhada de 20JUL22
[2544.] ao #15823.º
Eis a pergunta sacramental para a qual todos temos respostas, mas que não deixamos de fazer: Por que arde Portugal?
Das respostas que temos, invariavelmente, mora a culpa na casa ao lado. O Governo diz que a culpa é dos proprietários, os proprietários respondem que a culpa é da ‘mão criminosa’, outros afirmam que a culpa é da falta de meios, outros da descoordenação. E até num momento em que parecia que íamos ter o Presidente da República a dizer ‘A culpa é minha!’… ouvimos antes dizê-lo que não se recandidataria se os culpados não resolvessem o problema.
Pois bem… parece-me claro que está mais que visto que a culpa de Portugal, ciclicamente, arder loucamente é de todos, inclusivamente de quem escreve este texto e de quem o está a ler.
Neste ano de 2022, percebemos que há o problema natural das altas temperaturas e das baixas humidades que levam a que os incêndios sejam mais violentos. Em Albergaria, na semana passada, uma área que em 2017 tinha demorado 3 dias a arder… ardeu agora em 7 horas. Está a arder Portugal… como está a Espanha, o sul de França e a Itália. São as alterações climáticas? Atribua-se a culpa, então, democraticamente.
O abandono e a falta de cuidado de terrenos florestais perdidos por esse país, com tantos donos que não há quem mande limpar – até porque limpar é muito caro e não há quem o faça – são outro problema. Fazer o cadastro dos terrenos – com borlas temporárias e outros benefícios – é importante, mas não torna os terrenos imunes ao fogo. Emparcelar os terrenos, nacionalizar a propriedade não reclamada, ou fazer as Zonas de Intervenção Florestal (uma espécie de modelo cooperativo em que alguém gere e divide os lucros) são uma solução? É possível que sim, mas é preciso pressa e mão firme para tomar essas decisões… E os terrenos do Estado não são modelo para coisa nenhuma.
Financiar convenientemente os corpos de bombeiros e valorizar os bombeiros voluntários não evita os fogos, mas pode torná-los menos devastadores.
Há muito a fazer para minimizar o impacto que os fogos rurais ou florestais têm na nossa vida – com implicações económicas generalizadas e muito importantes -. E todos temos um papel nisso, quer sejamos herdeiros de terrenos perdidos por aí, quer sejamos profissionais de qualquer área de conhecimento, vivamos no campo ou na cidade, quer sejamos, apenas (?) eleitores. Podemos fazer todos parte da solução.
Mil Carateres #16 – Publicado no Jornal da Mealhada de 06JUL22
[2543.] ao #15809.º
Alerta prévio: Se tens entre 16 e 26 anos, por favor não leias este texto! Todos preferimos que não o faças!
A Fundação José Neves publicou a 21 de junho a segunda edição, a de 2022, do Relatório “Estado da Nação na Educação, Emprego e Competências” – acessível nesta morada https://joseneves.org/pt/estado-da-nacao-2022/ e com a sessão de apresentação no Youtube -. Este documento apresenta um retrato sobre a evolução da conjugação dos resultados na Educação, mais propriamente no domínio das Competências, e a sua conjugação no Emprego, e especialmente nos salários e nos rendimentos dos trabalhadores. E é mesmo importante que se leia o que diz este relatório, antes de se propalarem as frases feitas do costume autojustificativas de medidas que num país de brandos costumes nunca são avaliadas.
Não conseguimos em Mil Carateres analisar todo o documento e com isso justificar o que dissemos acima. Assim, seja-nos tolerado hoje o excesso e permita-se que abordemos três ideias simples, que o Relatório documenta friamente.
Primeira ideia – Os aumentos dos salários não estão a refletir-se em salários reais dos mais qualificados.
“Entre 2011 e 2019 o salário médio dos portugueses aumentou apenas para os trabalhadores com o ensino básico, na ordem dos 5%, por força do aumento do salário mínimo por decreto-lei e por via da negociação coletiva”. Pode até concluir-se do Relatório que o aumento ‘potestativo’ dos salários mais baixos provocou uma perda real de rendimentos dos trabalhadores com mais qualificações. Os trabalhadores com o ensino superior perderam 11% de salário real, e até os que têm o ensino secundário perderam rendimento, na casa dos 3%. Se a análise destas medidas se focar apenas nos mais jovens, percebemos que entre os jovens licenciados portugueses, na última década, os seus salários reais desceram 15%. Desceram 12% entre os que possuem o grau de mestre e 22% entre os doutorados.
E não é difícil perceber que do esforço hercúleo das empresas para aumentar os salários mínimos, não há margem para acompanhar proporcionalmente os salários dos trabalhadores diferenciados ou mais qualificados.
“Há cinco países da UE em que os trabalhadores menos qualificados ganham menos do que os muito qualificados em Portugal e noutros 13 os trabalhadores que têm secundário são mais “ricos” do que os nossos licenciados”, frisa o Relatório.
Segunda ideia – O investimento no aumento das qualificações não está a refletir-se num aumento da produtividade.
O Relatório considera que, apesar de os jovens estarem cada vez mais qualificados, isso só se reflete na produtividade quando estes “têm um peso superior a 40% no total de trabalhadores”. “A produtividade em Portugal tem perdido terreno face à média europeia e nem o aumento das qualificações das gerações mais jovens inverteu a tendência. Em 2019, éramos o 6.º país com menor produtividade – só acima de Roménia, Polónia, Letónia, Grécia e Bulgária – e desde 2000, ela nunca ultrapassou os 70% da média europeia (a última vez foi em 2013), tendo chegado à pandemia nos 66%”, diz o Relatório.
Terceira ideia – Os gestores/empregadores portugueses não têm qualificações.
Por fim há o velho problema dos gestores portugueses. Que é o da sua própria qualificação, em que quase não se tem visto investimento, com o país a apresentar a maior percentagem de empregadores que não terminou o ensino secundário. “Em 2021, era o caso para 47,5% dos empregadores, praticamente o triplo da média europeia (16,4%)”, lê-se no Relatório.
Se contrariamente ao que te foi pedido, tens entre 16 e 26 anos e estás a ler este texto, não fiques a pensar que com isto estamos a dizer que não deves aprofundar as tuas competências e investir na tua formação. O Relatório deixa claro que apesar de tudo, nomeadamente desta perda na última década, em Portugal um trabalhador licenciado tem um ganho salarial de 50% em comparação com um que tem apenas o secundário. E esta diferença passa para os 59% para quem tem mestrado. E há ainda “Os prémios salariais, que também se verificam nos jovens adultos (dos 25 aos 34 anos) e são os mestrados que conferem um retorno salarial superior, com ganhos de 43% face ao ensino secundário e de 15% face às licenciaturas”. O Relatório revela até que as perspetivas de estarem entre os 40% da população com maior rendimento aumenta em 50%” para os licenciados.
Mil Carateres #15 – Publicado no Jornal da Mealhada de 22JUN22
[2542.] ao #15795.º
A Política como Roma, e Roma como Júlio César, ama a traição, mas odeia os traidores. A ideia tem mais de dois milénios, permanece atual e assolou-me no final do dia de domingo, 19 de junho, com a notícia de que, em França, a coligação de Emmanuel Macron, apesar de ter sido a formação mais votada, não tinha maioria absoluta nem eventuais hipóteses de dar à Nação estabilidade governativa.
Emmanuel Macron foi a espoleta que deu origem, em França, a um processo de desestabilização político-partidária que acabou por tornar em escombros o histórico Partido Socialista Francês e em frangalhos a direita moderada que nunca se quis aliar ao clã Le Pen. Agora, a sua coligação política precisa de aliados para governar… e eles já não existem porque foram mortos pelo próprio Macron.
Macron sempre se assumiu como uma espécie de ‘jovem turco’ da política francesa. Com 29 anos torna-se militante do Partido Socialista Francês, chega a colaborador direto do Presidente da República François Hollande, em 2012, e Ministro da Economia em 2014. Saiu do Governo socialista dois anos depois, funda um partido político liberal – o En Marche!, oficialmente Associação para a Renovação da Política, mas cuja sigla (EM) são as iniciais do fundador. E apresenta-se às Eleições Presidenciais de 2017, que ganha com 66,10% dos votos.
Emmanuel Macron simboliza a política personalizada na figura de um jovem, capaz de mudar o Mundo, a França e o sistema político. Macron e o En Marche! passam a ser a pedrada no charco que destrói a lógica partidária do funcionamento democrático e os franceses confiaram nele. Era preciso acabar com o status quo.
Mas a prática política diária costuma desmentir estes lirismos românticos da mudança pela mudança e percebe-se que a tranquilidade, a estabilidade e o equilíbrio e a perenidade que a democracia exige e que os partidos – com muitos defeitos, é certo – garantem é absolutamente essencial. Na reeleição de abril de 2022, depois de um primeiro mandato conturbadíssimo, foi mais difícil segurar-se no Eliseu e só alcançou 58,54% da preferência na segunda volta contra Le Pen.
Agora o En Marche e a coligação com que se apresentou a eleições – o Ensemble! – tem 244 dos 577 lugares da Assembleia Nacional. O partido da direita moderada Les Républicains tem os 61 lugares que o EM precisaria para a estabilidade. Mas o partido fundado por Sarkozy não se quer coligar com quem o remeteu para a quarta posição do espectro partidário francês.
[2532.] ao #15772.º
Nas Lajes do Pico, terra de baleeiros, almoçámos muitíssimo bem no Restaurante Ritinha, mesmo no centro. Peixinho delicioso e bem tratado, bem regado com branco local e servido simpaticamente. Um regalo para os sentidos.
O passeio foi entre o parque de São João Pequenino e a Silveira, entre criptomerias, calhaus vulcânicos, moinhos de vento e alguma chuva.
Nos Açores as estações do ano são meros apeadeiros… Só têm a importância que lhes dermos.
22.150
#azoresexpedition2022 #n_experiencias #serfelizéfácil
[2531.] ao #15771.º
É domingo. É por isso comem se favas guisadas no salão da Irmandade de Santo António, no Monte (freguesia da Candelária – concelho da Madalena – Ilha do Pico). Soberbas! Os irónicos querem nas casadas… Mas não, estas são livre e vão com quem querem. Mesmo ao pequeno almoço. Connosco foram com tinto e SuperBock.
O resto do dia levou nos para o nordeste da Ilha. Trilhos pedestres em sequência do Miradouro da Terra Alta até à Manhenha!
Glorioso.
22.149
#n_experiencias #serfelizéfácil #azoresexpedition2022
Mil Carateres #14 – Publicado no Jornal da Mealhada de 25MAI22
[2541.] ao #15766.º
Amanhã, 26 de maio de 2022, Quinta-feira da Ascensão, observa-se o feriado municipal da Mealhada. Desde 2016 que neste ocasião se celebra, também, o Dia do Município da Mealhada.
Pode ser entendido por alguns como sendo, apenas uma formalidade, ou um acontecimento festivo sem grande importância. Mas não é assim. No território do Concelho da Mealhada sempre coexistiram grandes diferenças – e há mais de trezentos anos amplamente fomentados e hipervalorizados – que tornam a coesão um dos principais problemas de um Município com 185 anos.
Há quem acredite, e provavelmente com alguma razão, que o Concelho da Mealhada é uma federação de freguesias. Isso é evidente no dia-a-dia, na decisão política, na apreciação que a comunidade – nas suas diferentes comunidades – faz de acontecimentos e de opções.
Bastaria para ilustrar esta falta de coesão a pergunta simples: Qual é o gentílico do habitante do Concelho da Mealhada? Se perguntarmos a alguém de fora, naturalmente responderá que é ‘Mealhadense’. Mas será que uma pessoa da Pampilhosa se considera um ‘Mealhadense’? Será que alguém que seja de Luso se identifica com a designação ‘Mealhadense’? Pessoalmente, do que conheço, acredito que não, que dificilmente o gentílico seria aceite – natural e inconscientemente -.
Muito há a fazer, então, no sentido de juntar estas comunidades no sentido de se constituírem como uma só comunidade. Há momentos em que se dão passos importantes, há outros em que os retrocessos são mais que evidentes. E muitas vezes esses retrocessos até se fazem sem noção do que estrago. Mas acontecem, de facto.
O trabalho que a Igreja Católica está a fazer neste sentido, com a Unidade Pastoral da Mealhada e sob a liderança do Padre Rodolfo Leite é valiosíssimo e está a construir mais em 2 anos do que em muitos anos de boas vontades dos decisores políticos. E esse trabalho deve ser apreciado e valorizado e visto como um caminho a ser trilhado por outras organizações – como as IPSS, por exemplo, como as associações de cultura, etc. etc -.
Viva o Município da Mealhada, Viva o Concelho da Mealhada (que como se sabe são coisas diferentes…). E vivamos nós que amamos esta terra de forma incondicional, nos seus defeitos e nas suas muitissimas virtudes.