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Sobre a mesma temática, da ‘necessária despolarização da sociedade portuguesa nos tempos em que vivemos‘, publiquei na mesma semana dois textos de Opinião. No Correio de Coimbra, em 27NOV25, e no Diário de Coimbra, em 28NOV25. São duas abordagens ligeiramente diferentes sobre um mesmo tema. O texto do Diário de Coimbra segue neste post. O artigo do Correio de Coimbra está AQUI.
Antevendo mais um número quase bélico, o Presidente da República, na sessão solene do 25 de Novembro, preferiu falar de um Portugal com 900 anos e evitar o lugar-comum de exaltação versus negação do acontecimento histórico celebrado. Interpretámos um louvor, da parte do Chefe do Estado, a um Portugal maduro e perene orgulhoso da sua moderação e bom senso, hoje (momentaneamente?) envolto num clima de polarização crescente.
A polarização, enquanto ideia, reduz-nos, no contexto de convivência e socialização, a um caminho em que toda a visão da realidade se acossa à hipótese de dois polos antagónicos –, coloca-nos na obrigação de escolher apenas um dos lados. Depois impele-nos a catalogar o outro que está ‘do outro lado’ com generalidades que, no limite, o categorizam pelo polo escolhido.
É isso que vivemos em Portugal. Vivemo-lo na Política, em primeiro lugar, mas, entretanto, fomos contagiados pelos media para outros sectores da sociedade, até já se ter implantado nas conversas entre amigos, colegas de trabalho e famílias. Parece que vivemos, todos, no fio de uma navalha, onde não se pode estar sem cair para um dos lados opostos. Quem não concorda comigo, discorda de mim! Quem não é por mim… é contra mim!

Vivemos uma polarização que não é – ao inicio – uma crispação violenta, mas uma erosão silenciosa: o cancelamento dos que pensam diferente, a suspeita sobre o outro, o empobrecimento da conversa pública.
Em 25 de Novembro de 2025, ao encerrar a sessão solene da Assembleia da República evocativa dos 50 anos do 25 de Novembro, Marcelo Rebelo de Sousa entregou ao país — e aos seus representantes — um discurso onde exaltou a moderação, a temperança e a esperança.
Marcelo Rebelo de Sousa falou de 1975, quando “entre o risco da violência e a temperança, venceu a temperança”. E que, apesar das disputas sobre quem ganhou mais ou menos, quem perdeu mais ou menos, no fim “a pátria ganhou certamente”. Poderia estar a falar também de 2025?
Evocou Dom Pedro, 1.º Duque de Coimbra (1392-1449) “que morreria às mãos de um sobrinho”, para falar de um Portugal com nove séculos de existência e com características e virtudes inatas, sendo que a maior delas – para Pedro e para Marcelo – é a Temperança”. Isto é, o equilibro, que, segundo o chefe de Estado, prevaleceu no 25 de Novembro de 1975, com a vitória do “equilibro, da sensatez, da moderação”.
“Os portugueses estão unidos no essencial e com temperança”, considera Marcelo Rebelo de Sousa, no final do seu mandato. Uma perspetiva – ou perceção, como sói dizer agora – que remete para o reconhecimento de que há mais do que nos une do que daquilo que nos separa. E que não é a força nem o grito que consolidam a voz e a opinião coletiva, mas o respeito mútuo, a moderação, o reconhecimento da história e a responsabilidade coletiva.
Saibamos perceber que, com 900 anos, Portugal já tem idade para se deixar de entusiasmos momentâneos, de iras galvanizadoras e de voluntarismos efervescentes, e com Temperança resolver os seus problemas passo a passo, no vagar de quem tem consigo sabedoria.
Texto publicado no Diário de Coimbra de 28NOV25.
Diário de Coimbra #56









